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A evidência na inequidade em saúde

Por Wanderley Marques Bernardo

14/11/2014 17:59 | Última Atualização 10/11/2020 11:00

​​​​O uso da evidência científica na tomada de decisão frente ao paciente individual é um conceito primariamente ético, não uma questão econômica. Torna-se em um problema iminentemente financeiro, quando o sistema de saúde não sabe lidar com a prática sustentada pela ciência. O produto final dessa incapacidade é um​​ ambiente de inequidade, que produz desigualdades injustas de dispensação de atenção à saúde, à maior parte da população. 

As desigualdades, em saúde, têm indicadores relacionados à ausência do uso da evidência, como: ​

  • Deixar de oferecer ao paciente aquilo que ele precisa; g Induzir o paciente a desejar algo de que não precisa; 
  • Oferecer algo desnecessário, cobrando pelo fútil; 
  • Submeter o paciente a procedimentos ainda não avaliados;  
  • Expor o paciente à pesquisa travestida de boa prática, sem consentimento informado.
A vulnerabilidade de sub-grupos de pacientes, cuja atenção é nivelada por baixo, pode funcionar como parâmetro (evidência) para reduzir o nível da atenção em outros locais, e não como meta (evidência) para elevar esse nível. 

A evidência não é do interesse de muitos, pois, como um espelho, incomoda; como um holofote, ilumina; como um megafone, denuncia; como um padrão, expõe as fraquezas. 

​A evidência define estratégias éticas, sendo intolerante à existência de três sistemas de saúde em um mesmo país: 

​O prim​eiro sistema é idealizado para as massas, aproveita-se da submissão acrítica de seus pacientes, para os quais a única evidência é a mortalidade infantil de 40/1000, ou o acesso a médicos importados, igualmente submissos. 

O segundo sistema luta para suprir a incompetência do primeiro, é idealizado para um número grande de pacientes, muitas vezes está sensível à evidência, poderia minimizar as desigualdades, mas a pressão do caos toma sua atenção. 

​E finalmente, o terceiro, e mais malévolo, reservado e criado para uma minoria poderosa, que incita o caos, a discórdia, a judicialização, e se aproveita do status herdado, mentindo sobre a evidência, fazendo parcerias espúrias, ​praticando a antropofagia, determinando o custo do mercado, impondo preços e condutas, agravando as desigualdades, criando desejos e expectativas em uma população que não tem acesso ao básico. 

​Sistemas assim, não têm como usar a evidência científica como instrumento ético de redução das desigualdades, pois teriam antes que desconstruir o paradigma da injustiça social. Por isso, se habituam e se viciam: 
  • A ignorar o barato que sai caro; 
  • A desqualificar o caro que muitas vezes é de uso obrigatório; 
  • A se omitir em relação aos conflitos, deixando médicos, pacientes e o sistema devorarem-se mutuamente e democraticamente; 
  • A passar o tempo disputando internamente pelo poder da regulação, na qual quem grita mais e bate mais na mesa, regula; 
  • A esconder da população seus direitos, aproveitando-se do sorriso alegre de um povo acostumado com o sofrimento; 
  • A induzir a regulação por mecanismos desqualificados, como a mídia e o judiciário, que têm com suas limitações, procurado ajudar na redução da inequidade, mas que pelo desconhecimento, muitas vezes produzem o agravamento dessas desigualdades; 
  • A realizar uma política de saúde baseada em política e não em ciência; 
  • A focar a economia em saúde, no gasto com material médico e não na evolução clínica dos pacientes, ignorando o verdadeiro custo da saúde, com suas consequências sociais e injustiças. 

A evidência científica e as desigualdades são opostas: 
  • A expressão da desigualdade é a omissão, o desfecho de mais dor, menos qualidade de vida, e mais mortes evitáveis. 
  • A expressão da evidência é a ação, a intervenção que reduz a dor, aumenta a qualidade de vida e reduz a morte. 
O sistema desigual, imerso no caos, olhando para trás e sem tempo para o futuro, vive o imediatismo e questiona eternamente: Para que a evidência? O sistema de saúde baseado em evidência busca incessantemente:  
  • Espaço para o confronto entre o que não é feito mas deveria ser feito; 
  • Auditar e identificar o que tem sido feito mas não deveria ser feito; 
  • Esperança para a redução das desigualdades injustas em saúde, nos diversos lugares desta terra criada por Deus.​

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