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O princípio da dúvida

Por Wanderley Marques Bernardo

17/08/2016 11:24 | Última Atualização 10/11/2020 11:17

​​​A DÚVIDA BEM FORMULADA GARANTE A RESPOSTA

Perguntas relevantes, isto é, baseadas no conhecimento médico prévio e com sentido para a prática, sempre podem contar com respostas, que normalmente atendem à maior parte das situações comuns. Questões baseadas exclusivamente em outras motivações, como a resolução de conflitos, em condições raras, na economia ou baseadas no desconhecimento e na falta de experiência, também levam a respostas. Porém, elas são descentradas das necessidades reais e básicas dos pacientes, utilizando a dúvida como um meio, não como um fim. 

TODOS TEM DIREITO À DÚVIDA 

As diversas partes interessadas no processo de assistência à saúde devem ter a chance de participar demonstrando os benefícios, ou mais raramente, os danos, de suas ações. Como são muitas propostas, naturalmente surgem as dúvidas, e apesar de geralmente serem conflitantes, devem ter seu direito assegurado de sustentação. 

​A geração ou identificação das evidências, que potencialmente respondem às dúvidas, é a forma primordial de se resolver essas diferenças, pois permite estabelecer uma linguagem comum a todas as partes, por meio da qual todos entenderam. 

Entretanto, o direito à dúvida é um conceito muito mais amplo do que a própria evidência, pois está à mercê da interferência de outras variáveis, para as quais a evidência pura, advinda da pesquisa, está imune ou é impotente. Essas variáveis podem ser do passado, do presente ou do futuro, e produzem efeitos distintos na construção da dúvida. No que se refere ao passado, a herança, caracterizada pelo atraso na estrutura física e humana assistencial, na pobreza de produção científica relevante, e na dependência tecnológica, conspira contra o exercício do direito à dúvida da rede assistencial, dos pesquisadores e dos produtores de tecnologia. Na medida que nivela por baixo a incorporação de tecnologia, não consegue utilizar de maneira apropriada o que incorpora, prioriza a pesquisa de conveniência, ignorando as questões que realmente importam e limita-se a avaliações da tecnologia nacional “in vitro”, perpetuando a hegemonia internacional. Do presente, o mercado, que estimula o consumo desnecessário, controla a oferta, vive pelo marketing e tenta impor o que é evidência. Corrompe então, o direito à dúvida por meio de uma avalanche interminável de mentiras, em que é sempre melhor ter ou fazer, do que não ter ou não fazer. Este pensamento ressalta que o velho deve ser substituído pelo novo, só por ser velho. A propaganda tem mais valor e impacto do que a ciência e a pesquisa clínica financiada cria atalhos metodológicos para conclusões rápidas e com baixo custo. Do futuro, as políticas que por falta de identidade e maturidade, utilizam-se de uma linguagem imediatista, sem projeção ou perspectiva, são produtoras de inequidade e diferenças, dividida entre o capital e o social. Impede o direito à dúvida, simplesmente por negá-lo e cercando-se de um muro financiado de iminências e certezas, fornece um número variado de respostas prontas (poucas), que atendem a um momento sem futuro. Além disso, ao negar seu próprio direito à dúvida, são responsáveis por um clima de insegurança, de incerteza, de inferioridade de alguns, de superioridade de outros, de conflitos, e finalmente, de soluções órfãs, politicamente corretas. 

TODOS TEM O DEVER DE DUVIDAR 

Viver em um ambiente crítico, do qual faz parte a reflexão, a discussão de opções e o questionamento, favorece decisões equilibradas, com o maior benefício e maior segurança aos pacientes. O hábito de se permitir à dúvida não pode ser uma opção, devendo ser exercido sistematicamente por médicos e profissionais de saúde, ao lembrar que nenhum gerador de evidência está isento de interesses; pela rede assistencial, ao descobrir que a melhor evidência pode se revelar inútil na prática; pelos pacientes, ao expressar suas expectativas, pois fundamentam o uso da evidência e pelos produtores e agências reguladoras de tecnologia, ao limitar a incorporação não só pela segurança ou eficácia, mas pela efetividade comprovada em nosso meio. 

A DÚVIDA CENTRADA NO PACIENTE

As dúvidas sobre os pacientes são imutáveis, algumas recriadas por novas ainda sem respostas, e outras que nunca terão retorno, seja por barreiras científicas intransponíveis, ou simplesmente, por não despertarem interesse. Porém, pensar no paciente sempre nos leva à constante expressão da dúvida em palavras, as quais ganham poder ao demonstrar, na resposta, que os benefícios justificam os riscos. 

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