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Soluções sem valor para o paciente

Por Wanderley Marques Bernardo e Diego S. Bernardo

15/08/2014 15:15 | Última Atualização 10/11/2020 11:01

​​​​​Os sistemas de saúde mundiais têm lutado com o aumento dos custos e qualidade desigual dos serviços, e apesar do esforço de bons médicos, o seu foco central foi desviado, da melhoria de resultados, para a direção da manutenção de margens financeiras seguras. Assim, melhoram o acesso ao cuidado, apesar de fraco; reduzem os custos, em detrimento da qualidade; e aumentam os lucros, baseado no aumento do volume de serviços, e não em bons resultados. Mas, o objetivo fundamental dos provedores de saúde deveria ser melhorar o valor do cuidado aos pacientes, atendendo às suas necessidades, e se afastando do modelo baseado no que os médicos fazem. 

O valor é a relação entre os resultados de saúde importantes aos pacientes e o custo de se atingir esses resultados. Melhorar o valor implica melhorar um ou mais resultados, sem aumentar os custos, ou reduzir os custos sem comprometer os resultados, ou em ambos. O valor é determinado pela forma como a medicina é praticada, e os resultados, que importam para os pacientes, devem ser medidos pela condição médica individual, incorporando todo o ciclo de atendimento, como o estado de saúde alcançado; a qualidade do atendimento e da recuperação; e a sustentabilidade da saúde ao longo do seguimento. 

As propostas de reformas ao sistema de saúde têm sido oferecidas, alardeadas, e até mesmo impostas, por interesses particulares externos, a partir de “soluções mágicas”. Os interessados tomam o cuidado de preservar a estrutura funcional, de ignorar os problemas existentes, nunca criticar, e sutilmente sobrecarregam o sistema com ideias opostas ao valor para os pacientes, gerando falsas expectativas, e desviando o foco das ações que realmente são necessárias. Os provedores percebem então, em tempo variável, o mínimo impacto que essas soluções isoladas produzem, e decepcionados, tornam-se descrentes de que o valor do cuidado em saúde pode, ou deve ser melhorado, e novamente investem em racionamento e deslocamento dos custos para os pacientes, ou para quem os represente. 

As principais “soluções mágicas” propostas são: 

  • O combate à fraude e à corrupção não identifica as causas do cuidado de valor baixo, e ao inibir determinados serviços, pode impedir o aumento do valor; 
  • A redução de erros é um dos resultados importantes aos pacientes, mas não leva a uma reformulação do atendimento global, que aumenta o valor; 
  • As diretrizes baseadas em evidência são parte do ciclo de atendimento global, mas não refletem, muitas vezes, as circunstâncias individuais do paciente;
  • Os incentivos aos pacientes, para serem melhores “consumidores” de cuidados de saúde, são restritos a mudanças nos custos, sem educação; 
  • A criação de novos modelos de ambientes de cuidados primários produzem pouco impacto nos custos, pois estes, em sua maioria, são gerados no tratamento a doenças complexas; 
  • O modelo da captação, na qual o provedor recebe uma quantia de recursos para atender à necessidade de serviços do paciente, ao invés de fornecer apenas os serviços que oferecem excelente valor; 
  • A tecnologia de informação (TI) é ferramenta de auxílio a cuidados baseados em valor, mas sua introdução, sem reestruturação da oferta de cuidado, de mensuração e de pagamento, traz poucos benefícios. 

Portanto, nenhuma dessas soluções, por si só, utilizadas de maneira isolada ou associadas, têm o poder de produzir mudanças centradas no aumento do valor da atenção aos pacientes. Há necessidade de mudanças estruturais que partam de dentro, para que essas propostas sejam úteis: 

  • Organização em torno de condição clínica específica, e de uma equipe médica multidisciplinar, responsável pelo ciclo completo de tratamento; 
  • Mensuração dos resultados para cada paciente; 
  • Adoção do pagamento por pacotes, relacionados a cada ciclo global, ou completo, de cuidado a uma determinada condição clínica; 
  • Evitar a contabilidade de custos centrada em cargas de gastos e pagamentos “fee-for-service”, mas sim no custo do processo global; 
  • Mudar o foco, do volume e rentabilidade dos serviços fornecidos pelo médico, para os resultados dos cuidados aos pacientes;  
  • Integrar o cuidado a partir de competências específicas, substituindo o sistema fragmentado, em que cada provedor local oferece uma gama completa de serviços; 
  • Expandir geograficamente o alcance aos serviços de excelência, evitando sistemas de distribuição com duplicidade e pouca integração; 
  • Construir uma plataforma de TI acessível, que permita projetar estratégias, e suportar a atenção baseada no aumento de valor. 

Fonte: The Strategy That Will Fix Health Care. Michael E. Porter and Thomas H. Lee. October 2013 Harvard Business Review. Disponível em http://hbr.org.​

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